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ANÁLISE DE MERCADO

BRICS Pay: o Pix geopolítico que pode mudar o comércio entre Brasil, China, Índia e Rússia

EAG Agro
07 Jun 2026
4 min de leitura
BRICS Pay: o Pix geopolítico que pode mudar o comércio entre Brasil, China, Índia e Rússia

O Brasil pode estar diante de uma nova mudança na forma como o dinheiro circula no comércio internacional.

Na última cúpula do BRICS, avançaram as discussões sobre um sistema próprio de pagamentos entre os países do bloco: o BRICS Pay.

Na prática, a ideia é criar uma infraestrutura capaz de conectar sistemas nacionais de pagamento, como o Pix no Brasil, o UPI na Índia, sistemas chineses e outros modelos usados pelos países do bloco.

O objetivo é simples e poderoso: permitir pagamentos e liquidações entre países do BRICS com menor dependência do dólar e do sistema financeiro dominado pelo Ocidente.

O que é o BRICS Pay?

O BRICS Pay é uma proposta de sistema de pagamentos internacional voltado para países do BRICS e parceiros.

A ideia é permitir que pessoas, empresas e governos façam transações usando suas próprias moedas nacionais, com menos necessidade de passar pelo dólar ou por estruturas tradicionais como cartões internacionais e sistemas de compensação ocidentais.

Em linguagem simples: seria como levar a lógica do Pix para uma escala geopolítica.

Não significa que o Pix brasileiro simplesmente viraria uma moeda mundial.

Significa que sistemas nacionais poderiam se conectar para facilitar pagamentos internacionais.

Por que isso ameaça os Estados Unidos?

Durante décadas, o dólar foi a moeda central do comércio global.

Mesmo quando dois países fora dos Estados Unidos negociam entre si, muitas operações ainda passam pelo dólar.

Esse papel dá aos EUA uma influência enorme sobre o sistema financeiro mundial.

Quando países começam a discutir formas de negociar em suas próprias moedas, a dependência do dólar diminui.

E isso incomoda Washington.

Em 2025, Donald Trump chegou a ameaçar tarifas de 100% contra países do BRICS que tentassem reduzir o papel do dólar ou criar alternativas à moeda americana.

Essa reação mostra o tamanho da sensibilidade do tema.

O que foi discutido na cúpula do BRICS?

Em 2025, os ministros da Fazenda e presidentes de bancos centrais dos países do BRICS registraram avanços nas discussões sobre meios de pagamento próprios.

O comunicado final apontou progresso na busca por caminhos de interoperabilidade entre os sistemas de pagamento dos países membros, com o objetivo de reduzir a necessidade de conversão pelo dólar em determinadas transações.

Ou seja, não é apenas discurso político.

Existe uma agenda técnica para conectar sistemas financeiros nacionais.

Mas ainda é importante entender: isso não significa que o BRICS Pay já esteja operando em escala global como o Pix opera no Brasil.

O processo tende a ser gradual.

Já existe site e aplicativo?

Sim, já existe site ligado ao BRICS Pay e há informações sobre aplicativo em lojas digitais, com foco inicial em pagamentos por QR Code e integração com sistemas locais. O próprio site do BRICS Pay apresenta a proposta como uma solução para pagamentos em países do BRICS+, usando contas, cartões e moedas já existentes.

Análises recentes também apontam que a implementação deve começar de forma gradual, primeiro em operações de consumidor para empresa, com cartões e QR Codes, antes de avançar para usos mais amplos em transações empresariais e comerciais.

O tamanho econômico do BRICS

O impacto potencial é grande porque o BRICS representa uma fatia relevante da economia global.

Segundo dados divulgados pela presidência brasileira do BRICS com base no FMI, o bloco respondeu por cerca de 40% da economia mundial medida por paridade de poder de compra em 2024, com projeção de avanço para 41% em 2025.

Isso significa que qualquer infraestrutura de pagamento adotada por esse grupo pode ter impacto relevante no comércio global.

Não porque substituiria o dólar da noite para o dia.

Mas porque poderia criar uma alternativa paralela.

O impacto para o Brasil

Para o Brasil, esse movimento é especialmente importante.

O país vende para o mundo aquilo que muitos países do BRICS precisam: alimentos, energia, minério, proteína animal, grãos, café, açúcar, petróleo e insumos estratégicos.

China e Índia, por exemplo, são mercados gigantes para commodities.

Se parte das negociações puder ser feita com menor dependência do dólar, isso pode alterar custos, riscos cambiais, prazos de pagamento e estruturas de negociação.

No comércio internacional, pagamento não é detalhe.

Pagamento é poder.

Por que isso importa para o agro brasileiro?

O agro brasileiro é um dos setores que mais pode sentir qualquer mudança nas rotas financeiras globais.

Soja, milho, açúcar, café, carnes, óleo vegetal e outros produtos dependem de compradores internacionais, contratos, câmbio, bancos, cartas de crédito, seguros, frete e liquidação financeira.

Se o BRICS conseguir criar uma infraestrutura mais eficiente para pagamentos entre seus membros, o agro pode ser um dos primeiros setores a observar os efeitos.

Não necessariamente de forma imediata.

Mas como tendência estratégica.

O Pix virou referência

O Brasil tem uma experiência importante nessa conversa: o Pix.

Em poucos anos, o Pix mudou a forma como pessoas e empresas pagam, recebem, vendem e fazem transferências no país.

O sucesso do Pix mostra que sistemas simples, rápidos e baratos podem ser adotados em massa quando resolvem um problema real.

O BRICS Pay tenta levar uma lógica parecida para outro nível: o das transações internacionais.

A diferença é que, em escala global, entram questões muito mais complexas: moeda, regulação, bancos centrais, compliance, sanções, câmbio, segurança e geopolítica.

Conclusão

O BRICS Pay ainda não é um Pix mundial totalmente operacional.

Mas ele representa uma direção clara: os países do BRICS querem reduzir a dependência do dólar e criar caminhos próprios para pagamentos internacionais.

Para os Estados Unidos, isso ameaça uma parte importante da sua influência financeira global.

Para o Brasil, pode abrir uma nova frente de oportunidades no comércio com China, Índia, Rússia e outros países do bloco.

A verdadeira mudança não está apenas em uma pessoa conseguir comprar produtos no exterior com mais facilidade.

A mudança maior está no comércio de base: agro, energia, minério, alimentos, fertilizantes e commodities.

Se a rota do dinheiro muda, a forma de negociar também muda.

E quem entende essa mudança antes da maioria sai na frente.

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