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ANÁLISE DE MERCADO

A Fórmula 1 vai correr com combustível feito de resíduos?

EAG Agro
04 Jun 2026
3 min de leitura
A Fórmula 1 vai correr com combustível feito de resíduos?

A Fórmula 1 está entrando em uma nova fase.

A partir de 2026, os carros passam a usar combustível 100% sustentável dentro do novo regulamento técnico da categoria.

Na prática, isso significa que uma das competições mais exigentes do planeta vai servir como laboratório para uma tecnologia que pode transformar setores muito maiores do que o automobilismo.

E o principal deles é a aviação comercial.

A Fórmula 1 como laboratório

A Fórmula 1 sempre foi um campo de testes para tecnologias extremas.

Motores híbridos, recuperação de energia, aerodinâmica avançada, materiais leves e sistemas eletrônicos de alta performance já nasceram ou evoluíram dentro das pistas.

Agora, a nova fronteira é o combustível.

Segundo a própria F1, o combustível sustentável avançado de 2026 poderá ser produzido a partir de resíduos, biomassa não alimentar ou captura de carbono, sem depender de combustíveis fósseis tradicionais.

Ou seja, o objetivo não é apenas fazer o carro correr.

É provar que combustíveis líquidos de baixo carbono ainda podem ter papel importante na economia global.

Por que isso importa para a aviação?

Carros podem migrar para baterias elétricas com mais facilidade.

Aviões, não.

Você não coloca um Boeing de longo curso para atravessar o oceano usando apenas bateria elétrica com a tecnologia atual.

Por isso, o setor aéreo olha para o SAF, o Combustível Sustentável de Aviação, como uma das principais alternativas para reduzir emissões sem abandonar os motores a jato.

O SAF pode ser produzido por diferentes rotas tecnológicas, incluindo resíduos agrícolas, biomassa, óleos, gorduras, etanol e outros insumos de baixo carbono.

O que é Alcohol-to-Jet?

Uma das tecnologias mais promissoras é chamada de Alcohol-to-Jet.

A lógica é simples de entender: primeiro se produz um álcool sustentável, como etanol. Depois, esse álcool passa por processos químicos até se transformar em combustível compatível com aviões.

Empresas como LanzaTech, LanzaJet e Shell trabalham em rotas que convertem etanol e outros insumos em SAF. A LanzaJet afirma que sua tecnologia pode transformar etanol sustentável em combustível de aviação “drop-in”, ou seja, compatível com a infraestrutura existente.

É aqui que o Brasil entra na história.

O Brasil tem uma vantagem natural

O Brasil já é uma potência mundial em etanol.

Tem cana-de-açúcar, biomassa, palha, bagaço, logística agrícola, tecnologia industrial e décadas de experiência com biocombustíveis.

A Raízen, por exemplo, é uma das referências globais em etanol de segunda geração, produzido a partir de resíduos da cana, como bagaço e palha.

A empresa também recebeu certificação ISCC CORSIA para que seu etanol possa ser usado como matéria-prima na produção de SAF, seguindo padrões da aviação internacional.

Isso coloca o Brasil em uma posição estratégica.

Enquanto muitos países precisam importar biomassa ou criar uma cadeia do zero, o Brasil já tem parte importante dessa estrutura pronta.

O novo petróleo pode vir da biorrefinaria

Durante mais de um século, o petróleo foi o centro da matriz energética global.

Mas a pressão por descarbonização está mudando essa lógica.

A aviação, a indústria pesada, o transporte marítimo e outros setores difíceis de eletrificar vão precisar de combustíveis líquidos mais limpos.

E esses combustíveis podem sair de biorrefinarias.

O que antes era tratado como resíduo agrícola pode se transformar em energia premium.

Palha, bagaço, resíduos florestais, resíduos urbanos e outras fontes de carbono podem virar insumo para combustíveis avançados.

Oportunidade ou risco para o Brasil?

O Brasil tem uma oportunidade enorme.

Mas só ter matéria-prima não basta.

Se o país apenas vender etanol ou biomassa barata para que outros façam a tecnologia de maior valor, vamos repetir o erro histórico de exportar o bruto e importar o refinado.

O verdadeiro dinheiro está na cadeia completa:

produção agrícola,

biomassa,

etanol avançado,

biorrefino,

SAF,

contratos internacionais,

certificação,

logística,

comercialização.

Quem dominar essa cadeia vai capturar a margem.

Conclusão

A Fórmula 1 está mostrando uma tendência muito maior do que o automobilismo.

O mundo está procurando combustíveis líquidos sustentáveis para setores que não conseguem depender apenas de bateria elétrica.

A aviação comercial é um desses setores.

E o Brasil pode ser protagonista nessa nova economia.

Temos biomassa, etanol, indústria, tecnologia e escala.

A pergunta é se vamos vender apenas o resíduo barato ou se vamos capturar o valor do combustível pronto.

Porque o futuro da energia pode não estar apenas no poço de petróleo.

Pode estar na biorrefinaria.

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